O conto é um texto curto em que um narrador conta uma história desenvolvida em torno de um enredo - uma situação que dá origem aos acontecimentos de uma narrativa.
Há poucos personagens e poucos locais, pois como a
história é breve não é possível incluir vários lugares e personagens
diferentes.
Há vários tipos de contos: realistas, populares,
fantásticos, de terror, de humor, infantis, psicológicos, de fadas.
A estrutura desse gênero textual é composta por
quatro partes: apresentação do enredo, desenvolvimento dos acontecimentos,
momento de tensão - clímax, e solução - desfecho.
Alguns exemplos de contos escritos pelos maiores
contistas brasileiros são:
- A Cartomante, de Machado de Assis
- O Gato Vaidoso, de Monteiro Lobato
- Presépio, de Carlos Drummond de Andrade
- Feliz Aniversário, de Clarice Lispector
- A Caçada, de Lygia Fagundes Telles
- Conto de Verão n.º 2: Bandeira Branca, de Luis Fernando Verissimo
- O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan
Características do conto
O conto apresenta as seguintes características:
- Espaço delimitado;
- Tempo marcado;
- Presença de narrador;
- Poucos personagens;
- Enredo.
Espaço delimitado: o local em que se desenvolve a
história é delimitado, como uma determinada casa, rua, parque, praça. Isso
acontece pelo fato de o conto ser uma narrativa breve, em que não é possível se
falar em muitos espaços diferentes.
Tempo marcado: o tempo do conto é marcado.
Isso quer dizer que é possível saber em que momento a história acontece. Esse
tempo pode ser:
cronológico - quando as coisas acontecem numa
sequência normal, de horas, dias, anos.
psicológico - quando as coisas não acontecem numa
sequência normal, mas de acordo com a imaginação do narrador ou de um
personagem.
Narrador: a história do conto é contada por um narrador, que pode ser:
- Narrador observador, aquele que conhece a história, mas não participa dela.
- Narrador personagem, aquele que além de narrar a história, também é um dos seus personagens.
- Narrador onisciente, aquele que conhece a história e todos os personagens envolvidos nela.
Personagens: o conto contém poucos
personagens, porque como é um texto breve, não é possível incluir muitos participantes
na história. Os personagens podem ser principais ou secundários.
Enredo: o conto apresenta sempre um
enredo, que é um problema ou situação que dá origem aos acontecimentos de uma
história. Ele pode ser:
linear - quando os fatos seguem uma sequência
lógica, ou seja: apresentação, desenvolvimento, momento de tensão - clímax, e
solução - desfecho.
não linear - quando os fatos não seguem uma
sequência lógica, ou seja, em vez de começar pela apresentação do problema ou
da situação, pode começar pela sua solução e os acontecimentos são narrados ao
longo do conto.
Tipos de contos
Dependendo da temática explorada, há diversos tipos de contos, do qual se destacam:
- Contos realistas, os que narram situações realistas e não imaginárias.
- Contos populares, os que narram histórias transmitidas de uma geração para outra.
- Contos fantásticos, aqueles em que as histórias apresentam mistura de realidade com ficção e confundem os leitores com acontecimentos absurdos.
- Contos de terror, os que narram histórias cheias de mistérios, suspense e medo.
- Contos de humor, os que narram histórias que têm como objetivo divertir os leitores.
- Contos infantis, os que narram histórias para crianças e que têm a intenção de transmitir uma lição moral.
- Contos psicológicos, os que narram histórias que envolvem lembranças e sentimentos, e têm a intenção de levar o leitor a refletir.
- Contos de fadas, os que narram histórias que envolvem príncipes e princesas, e se desenvolvem em torno de um acontecimento trágico, mas que têm um final feliz.
Os minicontos, microcontos ou nanocontos são
subcategorias do conto, chamados de "contos minimalistas".
Eles são bem menores que o conto, uma vez que podem
ocupar meia página, uma página, ou ser formado por poucas linhas.
Mesmo que não compartilhem da estrutura básica dos
contos, esse tipo de texto tem adquirido diversas formas na atualidade,
sobretudo após o movimento modernista.
Dessa forma, ele deixa de lado a estrutura fixa
narrativa, privilegiando assim, a liberdade criativa dos escritores.
Estrutura do conto
A estrutura do conto é fechada e objetiva,
na medida em que esse tipo de texto é formado por apenas uma história e um
conflito.
Sua estrutura está dividida em três partes:
- Introdução: nesse momento inicial, há uma breve ambientação do espaço, tempo, personagens e enredo.
- Desenvolvimento: aqui se desenrolam os acontecimentos da história, relacionados com o problema ou a situação apresentados na introdução.
- Clímax: quando acontece o momento de maior tensão da história.
- Desfecho: encerramento da narrativa, em que se apresenta uma solução para o enredo.
Exemplos de conto
Trecho do conto Missa do Galo, de
Machado de Assis
“NUNCA PUDE entender a conversação que tive com
uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de
Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não
dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão
Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A
segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de
Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia
tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros,
poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher,
a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente
estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e
mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me
levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam
à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte.
Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia
amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por
semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas
afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e
fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em
verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem
grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um
harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era
atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que
chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não
sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro.
Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias;
mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família
recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto.
Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três
chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava
em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo?
perguntou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros,
velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no
centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia,
trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras.
Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao
contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas,
mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi
dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala
de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da
sala o vulto de Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência! (...)”
Trecho do conto Felicidade
Clandestina, de Clarice Lispector
"Ela era gorda, baixa, sardenta e de
cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme,
enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois
bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer
criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para
aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos
um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife
mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com
letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda
era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos
odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de
cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha
ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a
implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
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